Luiz Inácio quer se "livrar" de Norambuena, antes que morra em presídio federal
Marco Antonio Santos
Maurício
Norambuena está doente na prisão federal de Catanduvas – PR e, sem
assistência médica, corre sério risco de morrer na cela. Pela Lei de
Execuções Penais, cumpriu 1/6 da pena e já deveria gozar da liberdade
em regime semiaberto.
No início do mês passado os monopólios da imprensa
brasileira, a serviço dos oligopólios e igualmente subserviente ao
governo Luiz Inácio, publicaram notícias insinuando que os governos do
Chile e do Brasil firmaram um acordo objetivando a extradição do preso
político Mauricio Hernandez Norambuena para o seu país de origem, sob
condição de que ele cumpra o restante da pena recebida por aqui.
O Supremo Tribunal Federal, em 2004, autorizou a extradição do preso
político chileno, mas desde que ele cumprisse pena máxima de 30 anos,
como prevê a lei brasileira. À época, o governo Luiz Inácio negou o
pedido, preferindo que Norambuena mofasse na prisão brasileira sob o
famigerado RDD – Regime Disciplinar Diferenciado,
que é a aplicação do regime de solitária de forma permanente, como um
desenvolvimento da política carcerária da contra-revolução destinado à
destruição dos revolucionários, sepultando-os vivos e enlouquecendo-os,
numa sofisticação não vista nem na época do gerenciamento militar.
Sabe-se ainda que na mais recente visita da presidente chilena Michelle
Bachelet ao Brasil, em junho, o assunto foi discutido entre os dois
países, porém o Chile está a poucos meses das suas eleições nacionais e
a ida ao Chile do preso político Maurício Norambuena, seria
"inconveniente" para os conservadores políticos da direita
oposicionista chilena.
Porém, o governo brasileiro quer "se livrar do problema" antes das eleições presidenciais do ano que vem e, também, fugir da responsabilidade pelo agravamento da saúde do preso político e do provável risco de morte na cela.
"Ele mesmo [Norambuena] já declarou ter vontade de cumprir a pena no
Chile para ficar mais perto da família", diz Álvaro Diaz, embaixador do
país em Brasília.
Entendendo o caso
No dia 1º de fevereiro de 2002, uma denúncia levou a polícia local
a prender seis estrangeiros em um sítio no município de Serra Negra, a
150 quilômetros de São Paulo. Eram eles Karina Dana Germano
Lopez (de nacionalidade argentino-espanhola), Martha Ligia Urrego Mejia
(colombiana), Alfredo Augusto Canales Moreno (chileno), Marco Rodolfo
Rodriguez Ortega (chileno), Maurício Hernandez Norambuena (chileno) e
William Gaona Becerra (colombiano), acusados do crime de extorsão mediante sequestro do publicitário Washington Olivetto, que nesse momento estava sequestrado na cidade de São Paulo.
Os militantes Alfredo Augusto Canales Moreno e Maurício Hernandez
Norambuena, aconselhados pelos advogados, confessaram sua participação
nas negociações do resgate, fato que eles justificam e reivindicam,
afirmando que os outros detidos não tinham conhecimento do delito pelo
qual eram acusados.
Ainda em fevereiro de 2002, os quatro homens do grupo foram transferidos ao Presídio de Segurança Máxima Anexo de Taubaté,
no qual permaneceram isolados, e sem sequer poder se comunicar entre
eles por mais de seis meses, só com visita de familiares e sofrendo
restrições quanto à entrada em seu favor de artigos de vestimenta e
alimentação necessários; em condições de Regime Diferenciado Disciplinar (RDD).
Em julho de 2002, a Juíza Kenarik Felippe condena, em primeira instância, cada um dos acusados a 16 anos de reclusão, reconhecendo a Motivação Política do delito e aplicando Regime Inicial Fechado. É óbvio que essa sentença já foi política, vingativa e com caráter exemplar.
Em novembro de 2003, o Tribunal de Justiça de São Paulo revisa o julgamento, condena
os seis detidos à pena de 30 anos de reclusão, sendo que 19 (dezenove)
a cumprir em Regime Integral Fechado, pelo crime de extorsão mediante
sequestro. Além de aumentar a pena da extorsão mediante
sequestro de 16 (dezesseis) para 19 (dezenove) anos, por desconsiderar
a motivação política – comprovada pela trajetória de vida dos
implicados – e exigir seu cumprimento agora em Regime Integral Fechado,
o acordão agrega à condenação os delitos de formação de bando ou
quadrilha e também de tortura.
Os Desembargadores que julgaram em segunda instância demonstraram não ter levado em consideração que os acusados formam parte de movimentos políticos no Chile: a Frente Patriótica Manuel Rodriguez e o MIR.
Em dezembro de 2003, aprova-se nova lei alongando o prazo máximo de detenção há um ano em situação de Regime Diferenciado Disciplinar. Neste caso essa lei foi aplicada de modo retroativo
de maneira ilegal, dando-se por finalizado o tempo de detenção sob esse
regime somente em dezembro de 2004, o que não ocorreu.
Norambuena apodrece no RDD
O preso político chileno, encarcerado desde 2002 no Brasil, foi
transferido do Presídio de Segurança Máxima Anexo de Taubaté e está
desde 2007 na Penitenciária Federal de Catanduvas - PR, cumprindo por sete anos consecutivos o RDD, situação que viola fortemente a integridade física e psicológica dos que ali permanecem.
Cabe lembrar que as atuais condições de detenção são as seguintes:
- uma cela solitária de 3m por 2m, incluído o banheiro, cuja
água só é acionada do lado de fora, pelo carcereiro, depois de uma
longa espera;
- Duas horas de banho de sol por dia (se não chover) em pátio pequeno, às vezes com um outro preso;
- Visitas permitidas apenas aos irmãos, que moram no Chile, de onde a viagem é caríssima;
- Não é permitida a visita de profissionais da área da saúde (médicos, psicólogos e terapeutas), só do seu advogado;
- Nenhum acesso a meios de comunicação como jornais, TV, rádio, etc;
- Acesso a um livro (disponível) por semana;
- Nenhum contato com os outros presos;
- Proibição
de manter nas celas seus pertences como cadernos, escritos, livros que
lhe são presenteados e todo e qualquer objeto pessoal, depois de uso
imediato.
E, segundo o parecer da Lei de Execuções Penais, o preso político Maurício Norambuena já
deveria estar em regime semiaberto, sem a necessidade de cumprir o
restante da pena nos presídios brasileiros; porém com a extradição,
maquiavelicamente articulada pelos governos Michelle Bachelet e Luiz
Inácio, o preso político chileno ficará "preso indefinidamente" e afastado de qualquer luta social e política.
Quem é Norambuena – Capitão Ramiro
Conforme a reportagem da Revista FORUM – edição número 59 de
fevereiro de 2008 – Maurício Hernandes Norambuena, militante da Frente
Patriótica Manoel Rodrigues (FPMR), organização armada que atuou contra
o regime militar chileno do general Augusto Pinochet, tem duas penas de
prisão perpétua no Chile, uma por planejar e executar, em 1991, o
senador chileno Jaime Guzmán, importante colaborador do governo
Pinochet, e outra por ser um dos autores do sequestro de Cristián
Edwards, herdeiro do diário El Mercurio, um dos maiores jornais
chilenos. Preso, Norambuena era mantido em prisão de segurança máxima,
em Santiago. Acabou fugindo junto a outros três membros da FPMR, em 30
de dezembro de 1996, dentro de uma cesta blindada jogada dentro da
penitenciária e levada por um helicóptero. O episódio cinematográfico
teve colaboração do Exército Republicano Irlandês (IRA) e foi tema do
livro El Gran Rescate, de Ricardo Palma Salamanca, cuja versão em
longa-metragem sairia se o financiamento estatal não tivesse sido
cortado. Comandante Ramiro, como também é conhecido Norambuena, até os
25 anos era professor de Educação Física em Valparaíso. Filho de pais
socialistas e simpatizantes de Salvador Allende, não tinha inclinações
à luta armada, mas, como forma de resistir ao regime militar, ingressou
na FPMR. Tornou-se um dos principais responsáveis por atentados contra
a gerência militar e um contra o próprio Pinochet, em 1986.
Para a irmã Laura Hernández, o único recurso é o apelo à solidariedade.
"Ele foi um lutador contra a ditadura chilena e hoje sua vida e saúde
mental estão em perigo devido ao tratamento subumano, cruel e
degradante", acusa.
www.anovademocracia.com.br
anovademocracia.com.br
|